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Artigos › 18/04/2018

Santos?

Ao me perguntarem sobre o time para o qual torço, costumo ser bastante “ecumênico”, cuidando para não melindrar nenhuma camisa, pois na Igreja Católica há torcedores de todos os clubes. E respondo: como bispo, eu devo obedecer à Bíblia, onde se encontra uma ordem divina explícita: “Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo!” (Levítico 11,44; 20,7). E assim tento convencer meus interlocutores que não me cabe escolha. E ainda acrescento, sem constrangimento: isso deveria valer para todo bom cristão!

Torcidas à parte, o papa Francisco fez publicar agora em 9 de abril, o belo documento Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai). É uma exortação apostólica, gênero de texto mediante o qual o pontífice apresenta orientações aos católicos e a todas as pessoas “de boa vontade” sobre alguma questão específica. Neste caso, trata da santidade. A Igreja ensina, de fato, que a vida cristã é um chamado a ser santos.

Alguém poderia perguntar: há nisso algo de relevante para um mundo que padece de tantos males, sofre pela falta de justiça, respeito e tolerância? Isso é relevante para a humanidade, que tem sede de paz, mas continua a promover a guerra, não consegue assegurar uma vida digna para todos nem erradicar a pobreza e a fome, embora haja disponibilidade de bens para isso? Se todos buscassem a santidade, algo mudaria no mundo? Não ficariam as pessoas a olhar apenas para o céu, esquecendo-se do próximo e dos problemas ao seu redor?

Ao falar de santos, talvez pensamos logo em andores transportados em procissão, fumaça de velas queimando diante de estátuas, petição de milagres e graças especializadas a tal ou qual santo… Se assim pensamos, somos convidados pelo papa Francisco a rever nossos conceitos de santo e santidade. No conceito cristão e católico, a santidade refere-se a uma profunda sintonia e comunhão com Deus, ao respeito e à obediência aos seus mandamentos. E o respeito a Deus leva à valorização da pessoa humana e da natureza, vistas como obras de Deus. O papa Bento XVI ensinou que as leis da natureza contêm uma espécie de gramática que devemos aprender a ler e decifrar para conhecermos o desígnio de Deus presente em cada uma de suas obras. Os santos são grandes respeitadores e admiradores da obra de Deus.

A santidade verdadeira manifesta-se necessariamente na dimensão social do viver e do agir humanos, no amor ao próximo, nas relações de justiça, respeito e solidariedade por toda pessoa. Não há santo cristão que não tenha sido praticante de intensa caridade, compaixão e misericórdia. No ensinamento cristão, amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis. O papa Francisco lembra que o amor ao próximo não precisa ser extraordinário, mas vivido nos pequenos gestos de todos os dias. Por isso ele exorta: não é necessário afastar-se das ocupações quotidianas para se dedicar à busca da santidade, como se ela estivesse fora do alcance do comum dos mortais.

Todos são chamados a ser santos: “És uma consagrada ou um consagrado a Deus? Sê santo, vivendo com alegria a doação de tua vida. Estás casado? Sê santo amando teu marido, ou a tua esposa, como Cristo amou a Igreja. És um trabalhador? Sê santo cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho a serviço dos irmãos. És um progenitor, avó ou avô? Sê santo ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido de autoridade? Sê santo lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (n.º 14). O papa lembra que a santidade cristã se inspira nas bem-aventuranças do Evangelho (cf Mt 5,1-12) e no amor ao próximo (cf Mt 25), vividos em grau máximo pelo próprio Jesus.

Portanto, ser santo não equivale a ser estranho ou alheio ao mundo ou à sociedade. Nem leva a desertar de um intenso compromisso social. Certamente a santidade requer um comportamento marcado pelas virtudes mais enaltecedoras: além do amor ao próximo, retidão, justiça, honestidade, temperança, paciência, compaixão, generosidade, solidariedade… Uma vida moral de qualidade faz do santo um cidadão de bem, promotor da paz e de muita bondade no convívio social.

Que diferença, pois, fazem os santos para o mundo e para a solução de seus problemas? Fazem toda a diferença! Oxalá fôssemos todos santos! Cessariam as guerras, a violência, toda forma de injustiça e desrespeito contra a pessoa. O dinheiro público seria bem aplicado, não haveria mais pobres nem doentes sem serem socorridos. As cadeias poderiam ser fechadas, a polícia teria de reorientar seu trabalho, os estádios seriam lugar de diversão sadia e pacífica, a indústria de armas seria transformada em fábrica de instrumentos de trabalho, os arsenais de munições seriam depósitos de alimentos… As mídias sociais seriam usadas para o bem de todos, as crianças poderiam brincar, sem o risco de serem molestadas, em todas as esquinas e praças da cidade. E o mundo seria uma casa segura e boa para toda a família humana.

Estarei sonhando alto demais? Poderia parecer. Mas posso afirmar que isso não é para anjos, nem está fora do alcance dos humanos. Os santos não são mitos idealizados pelas nossas utopias: são pessoas reais, de carne e osso. Muitos viveram a santidade, até mesmo em grau heroico. E também hoje há muitos santos.

Fora da vida santa, o que teríamos a propor como referências altas para a vida? Quais outros ideais poderiam nortear a educação dos filhos e o bom convívio social? A afirmação pessoal a qualquer custo? As vaidades, que criam frustrações? O medo? A sede de bens, fonte de tantas injustiças e tantos sofrimentos?

Em tempos de crises e desorientação geral quanto aos valores que devem nortear a vida pessoal e social, o papa Francisco recorda: ser santos, eis a grande proposta. Isso é profundamente humano e está ao alcance de todos. E vale para todas as torcidas…

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo Metropolitano de São Paulo

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